História de vida

Elisabeth Kübler-Ross, M. D., foi uma médica psiquiatra suíça, nascida em 8 de julho de 1926, e falecida em 24 de agosto de 2004. Filha trigêmea de um casal de suíços, Elisabeth precisou realizar um grande esforço para ser reconhecida em sua singularidade, já que graças aos valores de sua cultura de origem era comum se tratar as crianças de uma mesma família de maneira rigorosamente idêntica. Este esforço para ser reconhecida em sua singularidade foi a marca central do que Elisabeth faria anos mais tarde, ao dar voz ao sofrimento singular de cada pessoa que se defontava com a proximidade da morte, ou com o processo de luto.

Eva, Erika, Elisabeth
Irmãs Ross (Elisabeth à direita), em 1942

Depois de crescer no seio de uma família amorosa, apesar dos problemas enfrentados especialmente com seu pai, Elisabeth decide por estudar Medicina, inspirando-se num grande médico que deixou o conforto da Europa para dedicar-se a um trabalho de grande impacto na África Equatorial Francesa: Albert Schweitzer. 

Uma experiência realmente impactante para Elisabeth, descrita por ela em sua mundialmente conhecida autobiografia, foi sua passagem pelo campo de concentração de Majdanek, ao fim da guerra. Para Kübler–Ross, esta visita constituiu uma grande lição sobre o sentido da vida.

Naquela altura, os campos de concentração ainda revelavam sinais frescos dos acontecimentos praticados contra a humanidade. Elisabeth ficou impressionada com o cenário: as torres de vigia, os vagões dos comboios que transportavam as vítimas, a quantidade de vestuário abandonado, de calçado de bebés, os montes de cabelo que seriam depois utilizados para vestuário. Reparou, num aspecto curioso, que nas paredes das barracas estavam desenhadas borboletas, muitas borboletas. Ainda que naquele momento Elisabeth não pudesse compreender o que via, anos mais tarde dedicaria sua vida a ajudar aqueles que se defrontavam com a morte a realizarem transformações que os tornassem mais plenos de vida.

kublerRoss_vmed_12p.grid-4x2

Depois de ingressar para a Escola de Medicina de Zurich, e casar com Emmanuel Ross,  Elisabeth se forma e começa sua atuação predominantemente no campo, ou seja, no interior da Suíça, onde pode se aproximar dos pacientes de uma forma muito especial. Ali, ela já passava horas, como médica, conversando e escutando pacientes gravemente enferm os, sendo despertada para o trabalho pelo qual viria a se notabilizar, anos mais tarde. Graças a algumas perdas gestacionais, Elisabeth viveu momentos difíceis, até que nasceram seus filhos, Kenneth e Barbara. Já morando nos Estados Unidos com sua família, Kübler-Ross realiza a sua residência em Psiquiatria.

Cicely-Saunder-E-Kübler-Ross-300x188
Cicely Saunders e Elisabeth Kübler-Ross, em 1966

Aproximadamente em 1965, Cicely Saunders, pioneira do movimento de cuidados paliativos na Inglaterra, consegue encontrar-se com Elisabeth Kübler-Ross por volta desta época, graças a Colin Parkes. Colin Murray Parkes, importante referência no trabalho com enlutados, havia se familiarizado com Elisabeth enquanto trabalhava nos EUA, e estava claramente ansioso por ela e Cicely Saunders se encontrarem, o que eles fizeram em um Instituto de Ciências, no mês seguinte, abril de 1966, na Universidade de Yale.

No outono de 1965, Elisabeth Kübler-Ross, naquela época uma jovem psiquiatra suíça radicada nos Estados Unidos, foi consultada por quatro estudantes do Seminário Teológico de Chicago, que desejavam compreender como o homem lidava com as maiores crises da vida. Era unânime: todos queriam estudar as reações do homem diante da morte, por compreender que a confrontação com a finitude seria potencialmente a maior crise da vida. Nos anos que se seguiram, Elisabeth conduziu um seminário transformador, que mudou a face dos cuidados em saúde e produziu um grande impacto na vida de milhões de pessoas! Uma brisa de esperança cuja força ainda experimentamos, quase cinquenta anos depois… Eis um relato de um de seus alunos, Frank Ostaseski, paliativista mundialmente reconhecido, que se notabilizou pelo seu trabalho no Zen Hospice, na Califórnia, em um recente livro publicado, intitulado Os cinco convites:

“Praticar diariamente a compaixão e a atenção plena é ainda uma forma de fortalecer as qualidades mentais, emocionais e físicas que nos preparam para o inevitável. Foi dessa maneira que aprendi a não deixar que meu antigo sofrimento me imobilizasse e, em vez disso, fiz dele a base para minha compaixão.
Quando meu filho Gabe estava para nascer, eu quis entender como trazer sua alma ao mundo. Então, me inscrevi em um workshop com Elisabeth Kübler-Ross, a renomada psiquiatra suíça pelo trabalho inovador com a morte. Ela havia ajudado muita gente a partir; imaginei que poderia me ensinar como convidar meu filho a chegar.
Elisabeth ficou fascinada com a ideia e me “adotou”. Ela me convidou para programas ao longo dos anos. Eu sentava quieto no fundo da sala e a observava lidar com pessoas que estavam de luto ou diante da morte. Isso moldou a maneira como mais tarde eu ofereceria cuidados paliativos aos necessitados. Elisabeth era habilidosa, intuitiva e quase sempre obstinada. Porém, acima de tudo, ela me mostrou como amar os pacientes sem restrições ou apego. Às vezes, minha angústia na sala era tão avassaladora que, para me acalmar ou executar as práticas compassivas, eu meditava imaginando que poderia transformar a dor que presenciava.
Numa noite chuvosa, após um dia particularmente difícil, eu estava tão abalado que, no caminho de volta para a minha sala, caí de joelhos numa poça de lama e comecei a chorar. Minhas tentativas de aliviar a angústia dos participantes tinham sido apenas estratégias para tentar proteger a mim mesmo do sofrimento. Elisabeth apareceu naquele exato momento e me ajudou a levantar. Ela me levou até sua sala para tomar um café. “Você precisa se abrir e deixar que a dor passe por você”, disse. “Ela não é sua; não a carregue.” Considerando o sofrimento que viria a testemunhar nas décadas seguintes, acredito que eu não poderia ter feito meu trabalho de forma saudável sem esta lição.” (OSTASESKI, F. Os cinco convites. São Paulo: Sextante, 2018, p. 19).

kubler-ross eva patient
Elisabeth Kübler-Ross em um de seus famosos seminários sobre a morte e o morrer, em 1969

O trabalho decorrente destes seminários foi compilado num livro, dando surgimento ao Sobre a morte e o morrer, publicado em 1969, um livro que produziu grande impacto na literatura médica de seu tempo. Elisabeth descreveu nesta obra o seu modelo de estágios do processo do morrer, e embora este fosse um primeiro modelo compreensivo, foi tomado erroneamente no decorrer dos anos como um modelo fechado de fases, que se sucederiam desde o diagnóstico até até a morte.

Elisabeth-Kubler-Ross-Guestbook2-pic

Apesar das incompreensões acerca de seu modelo, Elisabeth possibilitou uma ampla discussão em ambiente leigo e profissional sobre as necessidades das pessoas diante da morte e do processo de luto. Sem o seu trabalho pioneiro, a difusão da tanatologia e dos cuidados paliativos teria sofrido grande atraso, não apenas nos Estados Unidos da América, mas em todo o mundo.

No decorrer dos anos, Elisabeth publicou mais de 20 obras, ofereceu milhares de conferências e atividades educacionais ao redor de todo o mundo, recebeu dezenas de títulos honorários, e tornou-se uma das mulheres mais reconhecidas do mundo todo, seja pelo seu carisma e pela sua inteligência fora do comum, seja pelo seu trabalho humanitário de assistência e apoio a pessoas gravemente enfermas e seus familiares.

elisabeth kubler-ross camelos